domingo, 23 de junho de 2013

As duas faces de Obama

Imperialista ou pacifista? Defensor ou agressor dos direitos humanos? As contradições do Presidente dos EUA na visita à Europa
Há cinco anos, Barack Obama estava fora do sistema mas dentro dos corações alemães. Em 2008, durante a campanha para as presidenciais norte-americanas, o candidato democrata viu negada pela chanceler alemã Angela Merkel a pretensão de discursar frente à Porta de Brandemburgo. Trocando o local histórico por uma praça no bairro do Tiergarten, Obama acabaria por falar perante mais de 200.000 berlinenses e prometer uma nova era de paz e de cooperação.

Esta semana, 50 anos após o histórico “Ich bin ein Berliner” (Eu sou um berlinense) de John Kennedy, Obama reencontrou a capital alemã sob uma atmosfera diferente. Desta vez, o agora Presidente norte-americano pôde discursar na Porta de Brandemburgo – mas atrás de um vidro à prova de bala e em frente a pouco mais de 5.000 pessoas.

Voltou a falar da paz mundial, da meta de redução em um terço do arsenal nuclear norte-americano e russo, do combate às alterações climáticas – “a grande ameaça global da nossa era” – através de uma maior aposta nas energias renováveis e em automóveis mais eficientes. Mas passou boa parte da visita à Alemanha a tentar justificar o polémico legado securitário de cinco anos na Casa Branca: a manutenção da prisão de Guantánamo, o uso de aviação não tripulada (drones) na eliminação de suspeitos de terrorismo e o recentemente revelado PRISM, um sistema de cibervigilância que afecta a privacidade de grande parte da população mundial.

Com o PRISM a causar indignação no Velho Continente e a dominar as conversas mantidas com Merkel, Obama reafirmou que os serviços secretos norte-americanos não leram mensagens privadas nem escutaram telefonemas sem a validação prévia de um juiz, e declarou que o sistema permitiu evitar inúmeros atentados, incluindo na Alemanha. Mas a chanceler – que foi ridicularizada por afirmar junto de Obama que a internet é “território virgem” – pediu mais esclarecimentos de Washington.

O caso revelado pelo The Guardian continua a degradar as relações da Casa Branca com os principais aliados. Edward Snowden, o antigo técnico da NSA que expôs o escândalo e que poderá estar a preparar um pedido de asilo à Islândia, promete novas revelações para os próximos dias. E sobre Guantánamo, Obama reiterou a intenção de fechar a prisão e justificou o atraso com obstáculos políticos domésticos.

Vários protestos pacifistas marcaram a visita do Presidente dos EUA, com alguns manifestantes a empunharem cartazes a satirizar slogans de Obama – o Yes we can (sim, nós podemos) passou a Yes we scan (Sim, nós vigiamos) – e de Martin Luther King – o I have a dream (Eu tenho um sonho) substituído por I have a drone (Eu tenho um drone).

Conselhos para os europeus

Depois de um primeiro mandato dedicado na frente externa a uma aposta económica e militar na Ásia-Pacífico, Obama indicia agora uma reaproximação aos velhos aliados europeus, em parte devido à pouco entusiasmada receptividade das potências emergentes asiáticas em relação aos planos de Washington. Além da negociação de um acordo de comércio livre com a União Europeia, os EUA tentam influenciar a política económica do Velho Continente, com Obama a pedir uma reponderação da receita de austeridade imposta pela Alemanha em relação à crise do euro.

“Temos de ter a certeza que no cumprimento das políticas de longo termo – sejam estas de consolidação fiscal, a reforma de um mercado laboral rígido ou das pensões – não perdemos de vista o principal objectivo, que é o de melhorar as condições de vida das pessoas”, disse em Berlim.

Obama pediu ainda uma maior aposta no combate ao desemprego juvenil. “Temos de modelar a nossa estratégia para garantirmos que não estamos a perder toda uma geração que poderá nunca recuperar em termos da construção de uma carreira”, defendeu.

Após ter ouvido Merkel afirmar que a Alemanha não prossegue “políticas que prejudiquem os outros países europeus”, pois “tal prejudicaria” os próprios germânicos, Obama admitiu não ter também “uma receita perfeita” para a crise europeia.

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