Número total de visualizações de página

sábado, 26 de outubro de 2013

Guerra de Outubro entre Israel, Síria e Egito completa 40 anos

Há 40 anos, a resolução 338 do Conselho de Segurança das Nações Unidas instaurou o cessar-fogo entre Israel, Síria e Egito, como atores diretos na Guerra de Outubro (também conhecida por Guerra do Yom Kippur, pelos judeus, e Guerra do Ramadã, por muçulmanos). As tropas árabes tentavam retomar territórios ocupados por Israel, e a guerra teve efeitos surpreendentes para os israelenses, com consequências para a Europa e para os EUA.
Guerra de Outubro 40 anos. Soldados israelenses disparam com tanques franceses nas Colinas de Golã, em 1973.

Na Guerra de Outubro, Israel, Síria e Egito enfrentaram-se em um episódio surpreendente, com importantes efeitos geoestratégicos e geopolíticos, que atingiram a Europa e os Estados Unidos, em suas políticas para o Oriente Médio.

Em 1974, um ano após o fim da violência direta entre os envolvidos, o ex-primeiro-ministro da Síria, Salah al-Din al-Bitar, co-fundador do partido Baath e expoente do nacionalismo árabe moderno escreveu um artigo de análise sobre os efeitos da guerra.

O texto, intitulado “Implicações da Guerra de Outubro para o Mundo Árabe”, elenca setores da política externa diretamente afetados pelas hostilidades e seus resultados. Como ponto de partida, a surpresa de Israel com a determinação árabe e com a performance das tropas da Síria, do Egito e de outros países árabes ocasionou certa confusão geoestratégica, de acordo com al-Bitar.

Para o ex-premiê, “assim como o equilíbrio geoestratégico foi perturbado, também conceitos políticos e estratégicos foram postos de cabeça para baixo nos países da região e no cenário internacional”.

Al-Bitar ressalta a importância do desempenho árabe no conflito para a unidade entre os países da região e para evidenciar a necessidade de maior cooperação entre eles. Segundo o ex-premiê sírio, alguns resultados incluíram também a constatação do poder dos recursos energéticos, sobretudo do petróleo, como fator de pressão e dissuasão contra a política de dependência do Ocidente.

Abalo israelense e o projeto nuclear

Algumas pesquisas recentes têm desenterrado planos militares israelenses do auge da guerra, quando o então ministro da Defesa Moshe Dayan e a primeira-ministra Golda Meir viram-se surpreendidos pelas dificuldades estratégicas do que consideravam uma vitória certa.

Segundo uma série publicada em setembro pelo jornal israelense Yedioth Ahranoth, Dayan havia cogitado e proposto, diretamente à premiê, o uso de armas nucleares, tamanha a desorientação causada pelo desenvolvimento negativo para Israel. 
De acordo com declarações de autoridades israelenses envolvidas no processo de decisão na época da guerra, citadas pelo Yedioth, Dayan havia se surpreendido quando esteve no campo de batalhas e viu as tropas israelenses serem empurradas pelos soldados árabes.

Na série, o então chefe da diplomacia estadunidense, no governo de Richard Nixopn, Henry Kissinger também foi entrevistado, e afirmou que os EUA não tinham sido informados sobre a intenção israelense de usar armas nucleares. 

Já o então conselheiro adjunto de Segurança Nacional, Brent Scowcroft, tenha dito, na mesma séria, que o plano não seria uma surpresa, dado o nível de desorientação de Dayan. Alguns anos antes, em 1969, Israel e os EUA teriam debatido evitar que o governo israelense anunciasse seu poderio nuclear.

Mobilização árabe e geoestratégia

Para al-Bitar, “os árabes haviam recuperado a sua autoconfiança e a sua honra” após a “desgraça” em que teriam caído com a Guerra de Junho, de 1967 (também conhecida de Guerra dos Seis Dias).

Escrevendo em 1974, o ex-premiê sírio afirma: “Porque a unidade dos árabes é o seu caminho para a força, a modernização e a autodeterminação, Israel é aliado objetivo da fragmentação e da desunião”, e aspira “espalhar o colonialismo pelo mundo árabe, para proteger os interesses do Ocidente, principalmente dos Estados Unidos”.

Al-Bitar ressalta ainda que o Ocidente frustrou-se porque apostava em Israel como o “poder civilizador” contra o “barbarismo árabe”, como dizia o teórico fundador do sionismo político moderno (de base colonialista), Theodor Herzl.

A guerra revelou, de acordo com al-Bitar, que a paz e a segurança no Oriente Médio são indispensáveis para a segurança e a prosperidade, sobretudo da Europa, o que teria provocado um certo afastamento dos Estados Unidos, neste âmbito.

Entretanto, o desenvolvimento dessa constatação, nos tempos recentes, resultou em uma preferência pela manutenção do status quo, em questões como a própria Palestina, ocupada por Israel, e a falta de um tratado de paz efetivo entre a Síria e os israelenses. 
Este último foi logrado apenas entre o Egito e Israel, em 1974, através dos Acordos de Camp David, mediados pelos Estados Unidos e assinados pelo então presidente egípcio, Anwar Sadat. 

Desenrolar dos efeitos estratégicos

A morte do presidente Gamal Abdel Nasser, considerado um dos líderes do pan-arabismo, foi vista como uma grande perda para a afirmação árabe regional, e o acordo de Sadat com os israelenses foi interpretado como uma “transação”, em que o Egito recebeu a promessa de assistência militar anual dos EUA (de 1,3 bilhões de dólares, extremamente inferior à garantida a Israel).

As Colinas do Golã, território sírio, e a Península do Sinai, egípcia, continuam ocupadas por Israel, desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando também a Cisjordânia e a Faixa de Gaza haviam sido ocupadas. Além disso, na década de 1980, Israel chegou a declarar a anexação do Golã sírio, uma violação grave do Direito Internacional e uma medida retrógrada contrária aos princípios mais básicos da Carta das Nações Unidas, já que a tomada de territórios por meio da guerra é extremamente ilegítima.

Missões da ONU foram estabelecidas na região, como a Força de Observação do Desengajamento das Nações Unidas (UNDOF), em maio de 1974, que teve como mandato inicial a monitoração da vigência da resolução 338, de cessar fogo, na região das Colinas de Golã. A missão continua ativa.

Na década de 1990, o governo israelense e o sírio, presidido por Hafez al-Assad, chegaram a manter conversações diretas, mas as negociações não deram resultados práticos, e as relações diplomáticas entre os dois países continuam cortadas.

Já o Egito, entretanto, retomou relações com Israel ainda em 1974, com períodos de cooperação militar profundamente criticável, como as operações realizadas no Sinai contra militantes e a destruição de túneis palestinos. Estes resultam ser os únicos meios dos habitantes da Faixa de Gaza de conseguirem bens essenciais de sobrevivência e de conseguirem se movimentar, uma vez que o território é bloqueado militarmente por Israel e pelo Egito, com períodos de encerramento total da passagem de Rafah para o Sinai. 

Para al-Bitar, em seu artigo de 1974, o confronto entre o mundo árabe e o sionismo israelense é inevitável, já que a realização dessa política só é possível, de acordo com os conceitos políticos estabelecidos no país, através da ocupação e subjugação dos árabes. 

Sem comentários:

Enviar um comentário