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terça-feira, 7 de maio de 2013

Demoraram mas chegaram! E não é p’ra brincadeira

Invasão em progresso

Cinco bancos chineses chegam ao Brasil para dar suporte a pesados investimentos da indústria, que aportou US$ 50 bi no País, e para atender a executivos que aqui chegam
Com ativos que superam o PIB brasileiro, os dois dos maiores bancos comerciais da China – e maiores do mundo – possuem licença do Banco Central para operarem como banco múltiplo
Eles chegam silenciosos como os soldados de terracota. Aplicam alguns milhões aqui, gastam outros bilhões ali e quando alguém faz as contas já são US$ 50 bilhões em investimentos diretos. Carros, eletrônicos, aço, energia elétrica, petróleo, gás, minérios. Eles seguem avançando. Nem tão em silêncio. Quando alguém se apercebe, um prédio inteiro na rua Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, começa a falar mandarim.
Em São Paulo, um telefone toca na Rua Frei Caneca e do outro lado da linha um expatriado consegue usar sua língua materna para abrir uma conta bancária. A migração se completa. Os chineses também estão trazendo seus bancos ao Brasil.
Com ativos que superam o PIB brasileiro, os dois dos maiores bancos comerciais da China, que são os maiores do mundo, possuem licença emitida pelo Banco Central Brasileiro para operarem como banco múltiplo, com as carteiras comercial e de investimento e operações de câmbio. O Banco da China (BOC) já está em funcionamento e figura na nonagésima posição do ranking que lista mais de 200 bancos que atuam no país. Multiplicou por cinco sua carteira de crédito em 2012 e investiu em uma agência bancária para atender o varejo. O outro gigante, Banco Industrial e Comercial da China (ICBC), deve começar a operar em junho desse ano, segundo informações do BC.
No Rio, acaba de ser inaugurado o escritório de representação do Banco de Desenvolvimento da China (BDC), o poderoso banco de fomento do governo chinês, com ativos de quase US$ 1 trilhão e disponibilidade para financiar projetos de infraestrutura no Brasil. Além disso, pelo menos outras duas instituições já estão sondando o mercado brasileiro: o Banco da Construção e o Banco da Comunicação, segundo o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil China, Charles Tang, que assessora as instituições financeiras que buscam oportunidades de aquisições no país. A própria área técnica do Banco Central confirma que mais chineses estão fazendo consultas informais.
O desembarque das instituições financeiras chinesas tem como principal estratégia apoiar a ampliação da relação comercial entre os dois países e os investimentos de empresas chinesas. O comércio entre Brasil e China dobrou em cinco anos, chegando a US$ 75,4 bilhões. O plano para 2021 é ultrapassar os US$ 300 bilhões.
Na estratégia de competição, os bancos disputarão esse mercado com outras instituições estrangeiras já instaladas no Brasil e que focam os negócios entre brasileiros e chineses, como é o caso do HSBC, que atende cerca de 10% das operações comerciais entre os dois países. O professor de Finanças da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV), Hsia Hua Sheng, diz que a entrada dos bancos chineses tem justamente o objetivo de viabilizar maior cooperação.
“A relação dos países começou com o comércio, em seguida vieram as indústrias e esses investimentos demandam muitos serviços financeiros”, observou Sheng. O economista Paulo Yokota, parceiro de Delfim Neto na Consultoria Ideias e que mantém o site “Ásia Comentada”, diz que os bancos chineses vão tentar fazer o que o Brasil fez a décadas atrás, dando uma boa retaguarda para seus fornecimentos de equipamentos e serviços, como os voltados para a infraestrutura e construção pesada.
Estreia no varejo

Mas eles estão indo além e a chegada dessas instituições permite um fato inédito na história do país: um cliente brasileiro já pode abrir uma conta e ter cartão de crédito de um banco 100% chinês. Isso é possível no Banco da China, que abriu agência comercial em São Paulo, oferecendo serviços bancários para clientes pessoa física e pessoa jurídica.
Centro financeiro em Hong Kong
Apesar de a estratégia ser a de atrair clientes entre o grupo de “funcionários e diretores das empresas chinesas que buscam produtos bancários que possam facilitar o gerenciamento diário de suas finanças pessoais”, a atendente da agência explica que qualquer outra pessoa pode também abrir sua conta. Vender a moeda chinesa, o RMB (renmimbi, o antigo yuan), para os comerciantes que vão à China em busca de produtos baratos também é um negócio potencial. No mercado corporativo, o banco atende ainda empresas brasileiras como Vale, Petrobras, Braskem e CSN, em operações de comércio exterior.
De acordo com o balanço financeiro do banco referente ao exercício de 2012, o ativo total da instituição é de R$ 505,9 milhões, com depósitos totais de R$ 190 milhões e patrimônio líquido de R$ 130,6 milhões. O volume de crédito concedido passou de R$ 31,31 milhões em 2011 para R$ 173 milhões no ano passado. O banco teve faturamento de R$ 25 milhões, mas fechou o ano com prejuízo, de R$ 7,4 milhões, em função dos investimentos para a operação, como explicam as notas explicativas de seu balanço trimestral encerrado em dezembro.
O enfraquecimento da economia mundial, entretanto, fez com que o banco adotasse uma postura não tão agressiva ao fazer a análise, avaliação e aprovação de limites de crédito para empresas tomadoras de recursos. “O Banco da China tem expandido empréstimos via Cédulas de Crédito Bancário, além de emitir volumes crescentes de garantias para empresas chinesas no Brasil com lastro em contra garantias emitidas no exterior pela matriz dessas corporações, o que reduz, consequentemente, os riscos de crédito”, diz o relatório.
Chineses querem financiar, diretamente, projetos de infraestrutura
Financiar comércio exterior ou oferecer serviços financeiros a executivos expatriados e indústrias que investem no país são apenas as atividades iniciais dos bancos chineses que estão chegando ao Brasil. Essas instituições também querem entrar fortemente no financiamento direto à infraestrutura. Em março, o Banco de Desenvolvimento da China inaugurou escritório de representação no Rio de Janeiro, ocupando um andar inteiro do prédio na avenida Presidente Vargas.
O imóvel foi comprado pela empresa chinesa de transmissão de energia elétrica State Grid, que teve financiamento da instituição para adquirir ativos de transmissão no Brasil em 2010, quando pagou US$ 3,1 bilhões pela Plena Transmissoras. A inauguração do escritório de representação contou com a presença dos governadores do Mato Grosso, André Puccinelli, do Tocantins, Siqueira Campos, do vice-governador de Goiás, José Eliton, e da senadora Kátia Abreu (TO), que é presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Nos últimos anos, tem sido quase rotina o anúncio de instalação de novas empresas chinesas no Brasil. Os investimentos chineses estão voltados para setores estratégicos, como mineração e energia. A Câmara de Comércio e Indústria Brasil e China estima que os investimentos chineses no |Brasil já somem um total de US$ 50 bilhões. O presidente da entidade, Charles Tang, prevê que a vinda dos bancos chineses para o Brasil também vai atrair novos investimentos para o país. “Esse movimento é extremamente importante porque o Brasil tem potencial para ser uma superpotência no setor agrícola mas tem que receber investimento para crescer”, afirmou Tang.
Segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil China (CEBC), um centro de estudos sobre a relação bilateral sino-brasileira, os investimentos chineses mundo afora parecem buscar ativos que saciem as demandas da economia chinesa, muito dinâmica. Estatísticas da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) analisadas pelo CEBC mostram que os investimentos chineses no Brasil, que representava 3,5% dos investimentos externos chineses de 1990 a 2009 na América Latina, cresceram para 62,7% em 2010.
O estudo mostra que no período anterior a 2005, os investimentos chineses não eram significativos. A partir de 2010, no entanto, o país começou a experimentar um expressivo aumento dos anúncios de investimentos chineses no país, momento em que a China passou a incorporar as trocas com o Brasil às necessidades da sua economia.
“O salto verificado neste volume de investimentos chineses no Brasil é um importante indicador do surgimento de uma nova fase no relacionamento bilateral. Além de um aumento de 52% na corrente de comércio entre os países no período 2009-2010, a mudança assinala um novo e importante componente: a chegada de um expressivo volume de investimentos estrangeiros diretos”, observa o estudo.

D. P. L.


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