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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A extrema arrogâcia do império: a espionagem universal

Leonardo Boff

O sequestro do presidente da Bolívia, Evo Morales, impedindo que seu avião sobrevoasse o espaço europeu, e  a revelação da espionagem universal por parte dos órgãos de informação e controle do governo norte-americano nos levam a refletir sobre um tema cultural de graves consequências: a arrogância. Os fatos referidos mostram a que nível chegou a arrogância dos europeus, forçados pelos EUA. A arrogância é um tema central da reflexão grega de onde viemos. Modernamente, foi estudada com profundidade por um pensador italiano com formação em economia, sociologia e psicologia analítica, Luigi Zoja, cujo livro foi lançado no Brasil: História da arrogância (Axis Mundi, São Paulo, 2000).     
Neste livro denso, se faz a história da arrogância, nas culturas mundiais, especialmente na cultura ocidental. Os pensadores gregos (filósofos e dramaturgos) notaram que a racionalidade que se libertava do mito vinha habitada por um demônio que a levaria a conhecer e a desejar ilimitadamente, num processo sem fim. Uma espécie de energia tende a  romper todos os limites e terminar na arrogância, o verdadeiro pecado que os deuses castigavam impiedosamente. Foi chamada  de hybris — o excesso em qualquer campo — e de nemesis, o princípio divino que pune a arrogância. 
O imperativo da Grécia antiga era méden ágan: “nada de excesso”. Tucídides fará Péricles, o genial politico de Atenas, dizer: “Amamos o belo mas com frugalidade; usamos a riqueza para empreendimentos ativos, sem ostentações inúteis; para ninguém a pobreza é vergonhosa, mas vergonhoso é não fazer o possível para superá-la”. Em tudo buscavam a justa medida. 
A  ética oriental, budista e hindu, pregava a imposição de limites ao desejo. O Tao Te King já sentenciava: ”Não há desgraça maior do que não saber se contentar” (cap. 46); “Teria sido melhor ter parado antes que o copo transbordasse” (cap. 9). 
A hybris-excesso-arrogância é o vício maior do poder, seja pessoal, seja de um grupo ou de um Império. Hoje essa arrogância ganha corpo no império norte-americano, que a todos submete e no ideal do crescimento ilimitado que subjaz à nossa cultura e  à economia política.
Esse excesso-arrogância chegou nos dias atuais a uma culminância em duas frentes: na vigilância ilimitada que consiste na capacidade de um poder imperial controlar, por sofisticada tecnologia cibernética, todas as pessoas, violar os direitos de soberania de um país e o direito inalienável à privacidade pessoal. É um sinal de fraqueza e de medo, pois o império não consegue mais convencer com argumentos e atrair por seus ideais. Então, precisa usar a violência direta, a mentira, o desrespeito aos direitos e aos estatutos consagrados internacionalmente. Segundo os grandes historiadores das culturas, Toynbee e Burckhard, estes são os sinais inequívocos da decadência irrefreável dos impérios. Mas ao afundarem causam estragos inimagináveis.
A segunda frente da hybris-excesso reside no sonho do crescimento ilimitado pela exploração desapiedada dos bens e serviços naturais. O Ocidente criou e  exportou para todo o mundo este tipo de crescimento, medido pela quantidade de bens materiais (PIB). Ele rompe com a lógica da natureza que sempre se autorregula mantendo a interdependência de todos com todos. Assim, uma ávore não cresce ilimitadamente até o céu; da mesma forma o ser humano conhece seus limites físicos e psíquicos. Mas esse projeto fez com que o ser humano impusesse à natureza a sua regulação arrogante: assim consome até adoecer e, ao mesmo tempo, procura a saúde total e a imortalidade biológica. Agora que os limites da Terra se fizeram sentir, pois se trata de um planeta pequeno e doente, força-o com novas tecnologias a produzir mais. A Terra se defende criando o aquecimento global com seus eventos extremos. 
Com propriedade diz Soja: ”O crescimento sem fim nada mais é que uma ingênua metáfora da imortalidade” (pág.11). Samuel P. Huntington, em seu discutido livro O choque de civilizações (Objetiva, 1997), afirmava que a arrogância ocidental constitui “a mais perigosa fonte de instabilidade e de um possível conflito global num mundo multicivilizacional” (pág. 397). Esta ultrapassagem de todos os limites é agravada pela ausência da razão sensível e cordial. Por ela  lemos emotivamente  dados, escutamos as mensagens da natureza e percebemos o humano da história humana, dramática e esperançadora.
A aceitação dos limites nos torna humildes e conectados a todos os seres. O império norte-americano, por uma lógica própria da arrogância dominadora, se distancia de todos, cria desconfianças mas jamais amizade e admiração.
Termino com um conto de Leon Tostoi no estilo de João Cabral de Mello Neto: De quanta terra precisa um homem?  Um homem fez um pacto com o diabo: receberia toda a terra que conseguisse percorrer a pé. Começou a caminhar dia e noite, sem parar, de vale em vale, de monte em monte. Até que, extenuado, caiu morto. Comenta Tostoi: se o homem conhecesse seu limite, entenderia que apenas uns metros lhe bastariam; mais do que isso não precisaria para ser sepultado.

Para serem  admirados, os EUA não precisariam mais do que de seu próprio território e seu próprio povo. Não precisariam desconfiar de todos e bisbilhiotar  a vida de todo o mundo.

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