Número total de visualizações de página

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mísseis de cruzeiro com urânio empobrecido sobre a Líbia

Uma primeira avaliação sobre o impacto ambiental e a saúde

O apoio militar ao putsch de Benghazi contra o ditador de Tripoli efectua-se em detrimento das populações civis. Aproximadamente 1 em cada 10 mísseis guiados escapa ao controlo despenhando-se aleatoriamente fora da zona alvo. No entanto, todos os mísseis, sejam eles revestidos de urânio empobrecido ou apenas tendo urânio nos seus estabilizadores, poluem a zona. Assim, este bombardeamento pretendendo ser "humanitário" matará nos próximos anos milhares de civis, conforme explica o professor Massimo Zucchetti.

s questões respeitantes ao urânio empobrecido (depleted uranium, DU) e à sua toxicidade transcenderam, nestes últimos anos, o âmbito da ciência. O autor trata da protecção radiológica desde há vinte anos e do urânio empobrecido desde 1999. Após uma experiência de publicação de documentos científicos em revistas académicas, actas de colóquios internacionais e conferências na Itália sobre DU, este artigo tenta estimar os possíveis impactos ambientais e sobre a saúde da utilização do urânio empobrecido na guerra da Líbia (2011).

Informações sobre a sua utilização tem aparecido nos media desde o princípio do conflito. Em particular, foram utilizados mísseis Cruise desde os primeiros dias e mostraremos aqui que há a forte suspeita de que estes mísseis contenham Urânio Empobrecido tanto nos seus estabilizadores de voo como nas asas, ou como peso potenciador de energia cinética. Na última semana do conflito, aviões A-10 foram destacados e estes também são conhecido por utilizarem balas DU.

O ICBUW (International Council for the Ban of Uranium Weapons) tem tratado a fundo da questão. Declarações da US Air Force de que os aviões A-10 não estão a utilizar balas DU serão adoptadas como hipótese de partida, sendo entretanto muito suspeitas uma vez que em todos os conflitos passados (Balcãs, Iraque, Afeganistão) aviões A-10 utilizaram amplamente munição DU. Outras armas suspeitas de também conterem DU, tais como os aviões AV-8B, são apontadas aqui, mas não consideradas nos cálculos e avaliações seguintes, os quais se centram amplamente nos mísseis Cruise.

Devido às suas características físicas únicas, particularmente a densidade que o torna um potenciador de massa extremamente conveniente (cerca de 19 kg/l), mas também o custo baixo (o custo de produção do DU é cerca de US$2 por kg) e a incomodidade de tratá-lo como resíduo radioactivo, o DU encontrou o seu caminho de utilização no campo militar.

Se for tratado adequadamente, a liga U-Ti (urânio-titânio) é um material muito eficaz para a construção de penetradores de energia cinética, balas de metal pesado que podem furar blindagens quando disparadas contra as mesmas em alta velocidade.

O processo de penetração pulveriza a maior parte do urânio que explode em fragmentos incandescentes (combustão violenta a quase 5000º C), quando atinge o ar do outro lado da blindagem perfurada, aumentando o efeito destrutivo. Esta propriedade, chamada "piroforicidade", é a característica, por exemplo, do enxofre em fósforos. Assim, além da alta densidade do DU, a piroforicidade também faz dele um material de grande interesse para estas aplicações, em particular como arma incendiária (API: Armour Piercing Incendiary).

Finalmente, na fase de impacto sobre o objectivo, a dureza relativa do DU (em liga com o titânio) proporciona ao projéctil a capacidade de auto-afiação: por outras palavras, o projecto não se "achata" contra a blindagem a ser rompida, formando uma "cabeça chata" – como por exemplo um projéctil de chumbo – mas mantém o seu perfil afilado até a fragmentação completa, sem portanto perder as propriedades de penetração.

No campo de batalha, o DU certamente foi utilizado na Guerra do Golfo de 1991, durante os bombardeamentos da NATO/ONU sobre a República Sérvia da Bósnia em Setembro de 1995, contra a Jugoslávia na Primavera de 1999; neste século, durante o ataque ao Afeganistão e a seguir, mais uma vez, no Iraque em 2003.

A utilização de dispositivos com DU em guerras na Somália, Bósnia central e Europa central e do Leste (especialmente grandes áreas em torno de Sarajevo) na década de 1990, na Palestina e campos de tiro da responsabilidade de forças militares da NATO, ainda está incompletamente documentada.

Clique para ampliar. Dentre as armas que utilizam DU, incluímos também o míssil Tomahawk Cruise, cuja utilização durante a guerra balcânica da Primavera de 1999, embora não reconhecida pela NATO foi confirmada por descobertas no sítio e fontes da União Europeia.

Por outro lado, no Decálogo entregue a todos os soldados enviados para o Kosovo em 1999, havia recomendações a serem seguidas ao pé da letra declarando a presença de urânio empobrecido no território e particularmente em mísseis Tomahawk Cruise. A introdução diz o seguinte:

"Os veículos e materiais do exército sérvio no Kosovo podem ser uma ameaça à saúde de soldados e civis que lhes forem expostos. Os veículos e equipamento encontrados destruídos, danificados ou abandonados devem ser inspeccionados e manuseados só por pessoal qualificado. Os perigos decorrem do urânio empobrecidos resultantes de danos provocados pela campanha de bombardeamento da NATO relativos a veículos atingidos directa ou indirectamente. Além disso, os colimadores contendo trítio e os instrumentos e indicadores podem ser tratado com pintura radioactiva, perigosa para aqueles que tiveram acesso aos meios de inspeccioná-los. "Aqui estão dicas sobre como evitar a exposição ao urânio empobrecido. Textualmente: "Evitar qualquer meio ou material suspeito de ter sido atingido por munições contendo urânio empobrecido ou mísseis Tomahawk Cruise. Não apanhar ou colectar munições com DU encontradas no chão. Informe o seu comandante imediatamente acerca da área que sente estar contaminada. Demarque sempre a área como contaminada se encontrar material no sítio. Se estiver numa área contaminada, pelo menos use uma máscara e luvas. Garanta boa higiene pessoal. Lave frequentemente o corpo e as roupas".

As avaliações da quantidade de DU utilizado em mísseis de cruzeiro variam muito. Em particular, elas variam conforme as diferentes fontes, incluindo valores em torno dos 3 kg mas podendo chegar a cerca de 400 kg. Na nota há uma compilação de diferentes fontes disponíveis a este respeito, muito importantes para a estimação do impacto ambiental.

As previsíveis declarações oficiais de negação da presença de urânio nestes mísseis chocam-se com as publicações acima, bem como com fontes de origem militar.

Esta ampla variabilidade nos dados pode ser explicada facilmente. Alguns mísseis Cruise têm a sua cabeça lastreada com urânio empobrecido, outras não. Mesmo estas outras, contudo, ainda que não tenham uma ogiva com urânio empobrecido, trazem-no nas asas como estabilizador de voo.

Assim, podemos definir dois casos

CASO PIOR: Cruise com urânio na ogiva. Assuma 440 kg de DU.
CASO MELHOR: Cruise sem urânio na ogiva. Assuma 3 kg de DU nas asas.

Cálculo do impacto ambiental e seus efeitos na saúde

Na vasta literatura sobre urânio empobrecido vista pelo autor, o problema já examinado foi o cálculo da contaminação do urânio devido a mísseis de cruzeiro, particularmente aqueles lançados na Bósnia em 1995. O estudo também pode ser encontrado na Internet, bem como a revista científica "Tribuna Biologica e Medica" (Biological and Medical Forum).

Retornando aos modelos utilizados no artigo acima mencionado, pode-se deduzir qual é o mecanismo de contaminação, no ponto de exposição e de inalação, com um cálculo destinado apenas a determinar se – pelo menos num caso realista – a relevância das doses permite ou não esquecer o problema.

Consideremos o impacto de um míssil Tomahawk Cruise que contém 3 kg (melhor caso), ou 400 kg (pior caso) de DU.

O impacto produz uma nuvem de fragmentos de várias dimensões, após violenta combustão a cerca de 5000º C. A poeira é, como mencionado, composta de partículas dimensionadas na amplitude [0,5 – 5] micron [NT 1] . A uma distância entre 500 e 1000 metros do impactos alguém pode respirar nuvens com uma densidade suficiente de doses significativas, consistentes de partículas tendo uma massa com cerca de 0,6 a cerca de 5 nanogramas [NT 2] . Foi feita uma estimativa utilizando o código GENII para cálculos de dose e dispersão. Optámos por ignorar os efeitos do fogo, considerando apenas a exposição à inalação devida à simples libertação do material, sem considerar alguns factores que poderiam provocar acréscimo de exposição.

O grupo crítico, neste caso, é precisamente o das pessoas recobertas pela nuvem de pó após a explosão.

Depois de o míssil atingir o alvo, o pó pode incendiar-se, dispersar-se e ser oxidado no ambiente, conforme as estimativas que serão apresentadas neste trabalho.

Cerca de 70% do DU contido no míssil, o qual se supõe atingir sempre o alvo uma vez que é uma "arma inteligente", arde. Destes 70%, cerca de 50% são óxidos solúveis.

Todas as constituintes da poeira de óxido de DU cabem na categoria da pequena dimensão, ou seja, respiráveis, e do pó ultra-fino. Em particular, o diâmetro das partículas neste caso é mais fino do que o pó de urânio habitualmente encontrado na preparação de combustível nuclear nessa industria. Trata-se praticamente de pó incluído na amplitude [1-10] micron, com uma proporção significativa de partículas com um diâmetro inferior a um micron.

Quanto ao comportamento do pó de DU no corpo humano, a principal rota de contaminação é a inalação. Tal como mencionado, parte dos pós são solúveis e alguns são insolúveis nos fluidos corporais.

Dadas as características dos óxidos de DU de origem militar, deveria ser observado que elas têm diferentes comportamentos em relação ao pó de urânio industrial. Pode-se, contudo, assumir, de acordo com ICRP, que cerca de 60% do pó inalado é depositado no sistema respiratório, o restante sendo re-exalado.

Pode-se assumir que cerca de 25% das partículas com diâmetro em torno de 1 micron são retidas nos pulmões por um longo período, ao passo que o resto é depositado no aparelho de respiração superior, passando então para o sistema digestivo e sendo portanto eliminado, enquanto pequenas partes vão acumular-se nos ossos.

Cerca de 25% das micro-partículas é mantida nos pulmões, cerca da metade do material comporta-se como classe M conforme o ICRP, a qual é vagarosamente solúvel em fluidos corporais, enquanto o resto é insolúvel.

Este tipo de comportamento e exposição não foi estudado em qualquer situação anterior de exposição a emissores alfa nos pulmões, descoberta em aplicações civis. O caminho da exposição é muito diferente daquelas sob as quais doses equivalentes de radiação lesiva foram derivadas.

Portanto não é inteiramente correcto – embora seja um ponto de referência de partida – utilizar aqui as avaliações de risco do ICRP, as quais foram derivadas dos dados de pó radioactivo e da exposição de mineiros em minas de urânio, nem tão pouco é correcto utilizar as correlações derivadas dos estudos epidemiológicos sobre a população altamente irradiada de Hiroshima e Nagasaki. Os padrões de protecção à radiação do ICRP são baseados nestas experiências e portanto podem subestimar o risco neste caso.

Prosseguindo para um outro tipo da toxicidade que se pode encontrar na radiação ionizante, também é plausível que:

- Dada a componente de pó fino e ultra-fino do DU de origem militar,

- Dada a bem conhecida toxicidade química do urânio,

a contaminação ambiental de pós oxidados de DU de origem militar têm tanto toxicidade química como radiológica: ela deve ser avaliada pelo efeito sinérgico destes dois componentes.

Por outras palavras, a radioactividade e a toxicidade química do DU poderiam actuar em conjunto para criar um efeito "cocktail" o qual, mais uma vez, aumenta o risco.

Devemos também enfatizar o facto de que o clima árido da Líbia favorece a dispersão no ar das partículas de urânio empobrecido, as quais podem ser inaladas por civis durante anos após a explosão. Não se trata de caso, por exemplo, nos Balcãs. O principal mecanismo de exposição a longo prazo refere-se à re-suspensão de pó e consequente inalação.

A metodologia e suposições deste modelo já foram publicadas em outros trabalhos referidos pelo autor. Mencionaremos aqui apenas os refinamentos e alterações a respeito do modelo aplicado e já publicado, e em particular:

- O cálculo da dose ao longo de 70 anos e não mais de 50 anos, como recomendado pelo ICRP.

- Os dados disponíveis são utilizados para aproximar a distribuição da população em torno dos pontos de impacto, os quais também consideram a utilização das principais armas DU em áreas relativamente populosas da Líbia.

Os resultados do modelo podem ser resumidos como se segue:

- CEDE (collective effective dose equivalent): 370 mSvp e, 70 anos, para 1 kg de DU oxidado e libertado para o ambiente.

- CEDE máximo anual no primeiro ano (76 mSvp), seguido pelo segundo ano (47 mSvp) e terceiro (33 mSvp).

- Toda rota de exposição é através da inalação do pó. O órgão alvo é o pulmão (97,5% de contribuição para CEDE).

- Dentre os nuclídeos mais responsáveis, 83% do CEDE é constituído por U238 e 14% por U234.

Quanto à quantidade total de DU oxidado no ambiente, começamos a partir dos dados para esta avaliação encontrados na imprensa internacional: no primeiro dia de guerra, cerca de 112 mísseis Cruise atingiram o solo líbio [13]. Quantos mísseis serão disparados até o fim da guerra? Isso não se sabe, entretanto faremos uma avaliação considerando o disparo de 1000 mísseis. Em qualquer caso os valores são linearmente variáveis com a quantidade real de mísseis disparados, numa simples proporção.

Dada a extensão das operações militares, a ampla variedade de armas suspeitas de conterem DU, consideraremos que esta declaração estará do lado serguro.

Se todos os mísseis fossem "sem" DU, ainda assim haveria uma quantidade de: 1000 * 3 = 3000 kg = 3 toneladas de DU (melhor caso)

Se todos os mísseis estiverem a utilizar DU temos uma quantidade que sobe para;

400.000 kg = 400 toneladas de DU.

Comparem-se estes dados com as 10-15 toneladas de DU disparados no Kosovo em 1999 para avaliar a sua gravidade.

Assuma-se que cerca de 70% do DU incendeia-se e é liberdade para o ambiente, chegando-se então a estimativas da quantidade de óxidos de DU dispersos de cerca de 2,1 toneladas (melhor caso) e 280 toneladas (pior caso).

Isto portanto permite estimar uma CEDE (dose colectiva) para toda a população de:

· Melhor caso: 370 mSvp / kg * 2100 kg = 780 Svp

· Pior caso: 370 mSvp / kg * 280,000 kg = 104,000 Svp

Declaramos mais uma vez que isto não é inteiramente correcto – embora seja um ponto de partida de referência – para extrapolar as avaliações de risco a este tipo de poeira micro-radioactiva a partir dos padrões de protecção radioactiva do ICRP, os quais são aqueles adoptados pelo código GEN II.

Contudo, se aplicarmos aqui o coeficiente de 6% Sv-1 para o risco de cancro, obtemos:

· Melhor caso: cerca de 50 casos de cancro, a serem verificados em 70 anos.

· Pior caso: cerca de 6200 casos de cancro, a serem verificados em 70 anos.

Conclusões

Os riscos da exposição a urânio empobrecido da população da Líbia devido à utilização deste material na Guerra de 2011 foram avaliados com uma abordagem tão ampla quanto possível, tentando levar em conta alguns resultados recentes de estudos no campo.

Este tipo de exposição não foi estudado em qualquer situação anterior de exposição a emissores alfa dentro dos pulmões, encontrada em aplicações civis.

Contudo, a avaliação efectuada das doses e os riscos consequentes para ambas as situações (Cruise com ou sem urânio) permitem-nos extrair algumas conclusões:

No primeiro caso (o melhor), o número esperado de cancros é muito pequeno e absolutamente não relevante do ponto de vista estatístico. Esta dificuldade estatística – como é óbvio destacar – nada tem a ver com a aceitação desta prática, sua aceitação moral, ou ainda menos com alegações de um impacto menor ou mesmo da segurança desta prática.

No segundo caso (o pior), contudo, somos confrontados com um número de tumores da ordem dos milhares. Tal quantidade poderia ser facilmente detectada em estudos epidemiológicos e um tal número de baixas é, não há dúvida, bastante preocupante.

Deveria ser útil, portanto, que os exércitos que estão a bombardear a Líbia clarifiquem com provas, e não simples afirmações de conveniência, a presença ou ausência, e em que quantidades, de urânio nos seus mísseis e em outras armas.

No passado, houve negações "oficiais" da presença do urânio em mísseis Cruise, mas elas provinham da área militar: o autor vê, pelo menos, com alguma cautela a sua aceitação superficial.

Com base em dados disponíveis, estimativas sobre a tendência de casos de cancro na Líbia dos próximos anos em resultado desta prática são absolutamente injustificados e constituem uma preocupação. A discussão acerca do impacto relativo de cada uma das substâncias carcinogénicas utilizadas numa guerra (química, radioactiva, etc) parece – num certo nível – de pouca significância. Além disso, o autor coloca isto como uma reflexão final, tal discussão mostra pouco respeito pelo facto de que as baixas civis na Líbia que serão provocadas por este ataque excederão de longe qualquer montante que possa ser definido como "um preço razoável a pagar".

Finalmente, é importante coleccionar dados e investigações – e há muitas – no campo dos efeitos das "novas guerras" sobre a população e o ambiente. Devemos mostrar como armas modernas, de modo algum cirúrgicas e inteligentes, produzem danos inaceitáveis para a população que foi sujeita às guerras "humanitárias" a partir de 1991.

(Enviado por um Amigo)

Sem comentários:

Enviar um comentário