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sábado, 14 de setembro de 2013

A indústria do 11 de setembro

Na década pós-11/9, EUA gastaram US$4 trilhões e instalaram 30 milhões de câmeras de segurança no país.

Privatização da segurança: Após 12 anos dos ataques a Nova Iorque, a ‘Guerra ao Terror’ norte-americana deu suporte (e dinheiro público) para diversas empresas.

Apenas nove dias após os dois aviões atingirem as torres do World Trade Center, em Nova Iorque, o Congresso norte-americano autorizou um repasse emergencial de US$40 bilhões para fortalecer o aparelho de defesa antiterrorista do país. Desde então, os gastos não pararam de crescer. Em 12 anos de “Guerra ao Terror”, os Estados Unidos ultrapassaram a marca dosUS$4 trilhões em gastos que incluem desde equipamentos de vigilância interna, confecção de manuais antiterror para aeroportos, 30 milhões de câmeras de segurança instaladas no país e a presença ostensiva de tropas militares no Oriente Médio.
Surfando na onda de paranoia que se espalhou pelo país pós-11/9, talvez a principal beneficiária do cheque em branco que o combate ao terror produziu seja a indústria de segurança. Cerca de 70% do orçamento de inteligência interna dos EUA é gasto com contratos privados e vai parar direto no bolso de grandes empresas do setor. Criado em 2002, a conta do Departamento de Segurança Interna (Homeland Security) cresceu mais de 300% na última década. Existem hoje pelo menos 1.271 ONGs e 1.931 companhias privadas relacionadas a terrorismo, inteligência e segurança.

Abaixo, veja alguns dos serviços oferecidos pela rentabilíssima “indústria do 11 de setembro”. Uma das únicas que não parou de crescer (exponencialmente) nem quando o país era sufocado com a recessão econômica – muito embora seja muito mais provável que um norte-americano morra em um acidente de carro do que em um ataque terrorista.
Para promover o uso dos equipamentos em aeroportos, lobistas chegaram a instalar scanners no Capitólio.

Scanners de aeroportos. Nada mais lógico que o boom inicial tenha sido sentido onde foi registrada a falha primária que permitiu os ataques do 11/9: segurança aérea. Um dos mais populares, e também polêmicos, são os scanners de corpo inteiro. As vendas do aparelho – cuja unidade chega a custar US$200 mil – foram impulsionadas depois que uma tentativa de ataque suicida foi desvendada, no Natal de 2009. Líder no nicho de scanners, a L-3 Communications já vendeu mais de US$900 milhões para o governo norte-americano.
Educação anti-islã. O sentimento revanchista após 11/9 tomou o islã como o próximo inimigo a ser combatido. Não podia deixar de existir, então, consultorias especializadas em providenciar esse “treinamento islamofóbico“, característico da ideologia da Guerra ao Terror. O CI Centre, por exemplo, oferece cursos e análises supostamente abalizadas sobre a ameaça muçulmana para agências do governo e outras forças da lei. Um curso de cinco dias para funcionários públicos intitulado “Doutrina da ameaça jihadista global” custa US$39 mil. Para uma classe de 30 alunos, o workshop “Morrendo para nos matar: compreendendo a mentalidade das operações suicidas” sai por US$7 mil.
Marca da administração Obama, mercado dos drones (aviões não-tripulados) movimenta US$6 bilhões todos os anos

Drones. A “guerra sem baixas” (pelo menos, não do “nosso lado”) virou uma das marcas da política externa do presidente Barack Obama. A principal ferramenta: aeronaves não-tripuladas. A alta demanda faz do mercado de drones um dos mais quentes, movimentado quase US$6 bilhões todos os anos. A General Atomics, fabricante do Predator e líder do mercado, tem contratos milionários com o Departamento de Defesa e um futuro promissor, já que os EUA pretendem exportar o modelo para outros países.
Soldados profissionais. As intervenções do Exército norte-americano fora do país foram responsáveis pela criação de um verdadeiro complexo industrial paramilitar. Por meio de contratos milionários com os EUA, empresas como a Blackwater terceirizaram a “Guerra ao Terror” e criaram “soldados profissionais”. A companhia, que depois mudou de nome, atuou por um tempo como uma espécie de extensão da CIA, mandando recrutas – “mercenários contemporâneos” – para o Afeganistão, fazendo da base das forças armadas um verdadeiro campo privado de treinamento militar.
Privatização da inteligência. Recentes vazamentos de informação confirmaram que os EUA têm acesso a uma infinidade de dados de comunicação: emails, bate-papos, histórico de navegação, buscas na internet, telefonemas. E quem vai processar e sistematizar toda essa montanha de informação? Empresas como a Booz Allen, a antiga empregadora de Edward Snowden, o homem responsável por vazar o esquema de vigilância da NSA. Companhias como esta trabalham no cerne da inteligência norte-americana, cada vez mais privatizada. Dos 854 mil cidadãos que possuem acesso a informações secretas, 250 mil (30%) são do setor privado.
Lobby. “Onde tiver dinheiro público nessa quantidade, sempre vai haver um enxame de lobistas”, afirma Michael Beckel, pesquisador político. Em Washington o lobby existe, e é pesado. Certa vez, introduziram scanners dentro do prédio do Capitólio para convencer os parlamentares da sua utilidade. Mas o problema é quem está fazendo esse lobby. Quando as parcerias público-privadas começaram nos EUA, a maior justificativa foi comercial. Seria mais barato. Hoje, uma década após a escalada dos gastos em segurança, fica mais e mais evidente o conflito de interesses entre o público e o privado. Na indústria de scanners, oito em cada dez lobistas são egressos da carreira pública. Boa parte da linha de frente das agências públicas de segurança já passou pelas gigantes do setor privado – James Woosley (ex-chefe da CIA) foi da Booz Allen; William Studeman (ex-diretor da NSA), foi fisgado pela Northrop Grumman; e Barbara McNamara (também da NSA) foi contratada pela CACI. Entre 2004 e 2008, pelo menos 80% dos oficiais de alta patente que se aposentaram foram trabalhar no setor privado.

A. L.




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