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terça-feira, 26 de março de 2013

Sobre as ideologias de extrema-direita

É preciso estudar os fenômenos concretos para extrair deles os fatos relevantes



Fábio de Oliveira Ribeiro, via Centro de Mídia Independente

Há alguns dias, a mídia deu muita atenção à prisão dos neonazistas que atuavam na internet e pouco ou nenhuma atenção à manifestação antiaborto dos jovens da TFP na frente da Igreja da Sé.

Os estudos de Marx sobre ideologia são muito interessantes. Seu diatribe contra o idealismo alemão de Feuerbach também. Mas Marx nunca se interessou em estudar como e por que a ideologia desloca os indivíduos da realidade. Ele aceitou o fato de que a ideologia produzia este deslocamento e seguiu em frente.

A ideologia, penso, tem o poder de deslocar o indivíduo no tempo e no espaço.

Alguns hospedeiros da ideologia cristã vivem como se estivessem na Idade Média combatendo infiéis. Então, onde quer que não encontrem um espelho perfeito, ou seja, alguém que reflita sua própria ideologia cristã excludente e intolerante, eles identificam um infiel que deve ser combatido e destruído. No limite, partem para a guerra santa como Breivik e os fervorosos soldados norte-americanos que participaram da cruzada bushiana no Afeganistão e no Iraque.

Os hospedeiros da ideologia nazista querem se comportar como se ainda estivéssemos vivendo na Guerra Fria ou pouco antes desta. Mas no caso deles o deslocamento espaço/temporal não pode ser feito com a mesma eficácia que aquela que ocorre no caso do fanático cristão. Isto ocorre porque o combate ao comunismo internacional caducou em razão do fim da URSS, por causa da penúria econômica de Cuba e Coreia do Norte e, principalmente, porque os partidos comunistas ocidentais se acomodaram muito bem à vida capitalista (até os comunistas chineses são capitalistas fervorosos atualmente).

O anticomunismo neonazista se tornou menos importante que o ódio racial. Mas o próprio conceito de raça não se ajusta bem ao momento presente ou ao espaço geográfico/humano brasileiro. Ao contrário do que ocorria nos anos 1930, a “raça” deixou de ser uma categoria científica importante ou reconhecida. No Brasil a miscigenação é o fator populacional dominante. Raça e pureza racial aqui são coisas senão impensáveis, impossíveis de vingar como plataforma político-partidária. Então o ódio racial político do neonazista deriva para um ódio irracional de natureza sexual (contra gays e mulheres) e para o preconceito irracional (contra negros e nordestinos num país que teve seu apogeu econômico no passado justamente no Nordeste e em que o elemento negro é uma das três matrizes populacionais dominantes no presente).

Dos dois tipos de ideologia no momento a mais perigosa não é a nazista. Ela pode no máximo provocar distúrbios localizados e criminalidade comum. A única ideologia intolerante que ultimamente tem demonstrado potencial político (caso dos EUA e em menor escala do Brasil, onde o abordo vem sendo transformado de questão religiosa em questão politico/partidária) e que pode provocar distúrbios em escala regional e até nacional é o fanatismo cristão. Neste caso o deslocamento espaço/temporal ocorre de maneira perfeita e o infiel (o adversário) está aqui e pode ser identificado de maneira fácil com aquele que apoia o abordo, por exemplo. Como o Brasil é um país predominantemente católico o fenômeno da intolerância política de matriz religiosa (ou o fenômeno da intolerância religiosa com consequências políticas) pode expandir e se transformar numa força explosiva.

Portanto, mais perigosos que os neonazistas que foram presos pela PF são aqueles garotos bonitos da TFP na frente da Igreja da Sé. É com eles que a mídia e a PF deveriam se preocupar.

T. M.

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