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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A Chávez o que é de Chávez


















"Nada é terminado quando ainda há a fazer."

A corrente militar-revolucionária de 1992, liderada pelo tenente-coronel Hugo Chávez, tinha o objetivo de implantar na Venezuela um novo modelo de sociedade, que nos anos seguintes viria a ser conhecida como Revolução Bolivariana. A empreitada militar fracassou, mas o projeto político da mudança lançava ali suas bases. No último 4 de fevereiro, vários países latino-americanos celebraram aquele dia histórico e os feitos que se seguiram a ele. Ainda que o então presidente, Carlos Andrés Pérez, não tenha sido derrubado, emergia daquela cena política a figura que em poucos anos viria escrever seu nome na história do país.

 Este ano, pela primeira vez desde que assumiu o poder em 1999, Chávez não esteve presente nos atos comemorativos da revolução, devido ao tratamento médico que realiza em Cuba. Nem por isso, deixou de enviar sua mensagem ao povo venezuelano. Lido na Praça Pagüita pelo presidente em exercício, Nicolás Maduro, o texto de Chávez lembrou o “espírito de combate” e o princípio bolivariano: “nada é terminado quando ainda há a fazer”. Mas o que dizer do que foi feito nesses vinte e um anos?

Desde o seu primeiro mandato, o presidente tomou para si um projeto emancipador, baseado nas grandes reformas sociais, com ênfase na redistribuição da renda propiciada pela exportação do maior recurso econômico do país, o petróleo, e os ideais outrora vislumbrados por Simon Bolívar, El Libertador, que, já no início do século XIX, objetivava a independência e a integração dos países da América Latina.

Os indicadores sociais evidenciam uma significativa melhoria das condições de vida do povo. O censo de 2011 aponta avanço significativo nos índices relativos à educação, saúde e saneamento básico. Embora a desigual distribuição das riquezas produzidas persista, o levantamento que mede a satisfação das necessidades básicas, proposto pela CEPAL-ONU, revelou que entre 2001 e 2011 o índice de pobreza extrema caiu de 11,4% para 6,7%. No mesmo período, observou-se o aumento de 67% para 75,6% entre os considerados não pobres. Se compararmos os Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) brasileiro e venezuelano, em 2011, o nosso vizinho estava mais bem situado no ranking mundial, ocupando a 73ª posição, enquanto a nossa era a de 84ª.

No entanto, de forma generalizada o antichavismo se cristaliza. Do lado de cá da fronteira, a oposição do nosso Congresso à entrada da Venezuela no Mercosul somente foi superada em dezembro passado, com o decreto do governo brasileiro promulgando a adesão do país ao bloco regional. A rejeição por parte da bancada oposicionista baseava-se na suposta insegurança provocada pela figura de Chávez. Em resposta às críticas, os governistas apontavam as vantagens em ter o país como membro efetivo do Mercosul: o ganho de um mercado com força econômica que ultrapassa alguns países da União Europeia, em termos de população e capacidade industrial, e a conquista de um sócio que sozinho conta com a maior reserva de petróleo conhecida no mundo, fato que por si só atraiu para ele o interesse de grandes potências, principalmente dos Estados Unidos.

É certo que Chávez não conseguiu usar os recursos energéticos para implementar todas as mudanças que se faziam necessárias na estrutura social da Venezuela. O país ainda não conseguiu formar quadros especializados, fundamentais para uma satisfatória diversificação de sua economia, e segue importando bens para suprir plenamente suas necessidades básicas. A exploração das reservas energéticas, porém, foi responsável por uma mudança significativa na posição geopolítica da Venezuela no cenário internacional, dando-lhe inclusive a possibilidade de estreitar relações com grandes potências, como a Rússia e a China.

Apesar da propaganda negativa veiculada pela grande mídia, que o apresenta como ditador, poucos governantes se sujeitaram por tantas vezes à vontade das urnas. Ao assumir o poder, convocou uma Assembleia Constituinte com bases amplamente democráticas e legitimou, via consulta popular, seu projeto transformador da sociedade. Eleito em 2012 para o terceiro mandato, Chávez tornou-se o único chefe de Estado latino-americano a se submeter, e sair vitorioso, ao chamado recall, ou referendo revogatório, instrumento constitucional criado por seu próprio governo, que poderia lhe cassar o mandato e convocar novas eleições antecipadas.

Por mais polêmica que seja sua liderança, ele conseguiu mudar consideravelmente o quadro social e político do país. Fujamos, pois, das visões polarizadas. Cautela com os pensamentos unilaterais: a Chávez o que é de Chávez!

  Jamile Lourdes Ferreira Tajra

Mestranda em Políticas Públicas e Sociedade e Pesquisadora do Observatório das Nacionalidades
A.    G.

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