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quarta-feira, 13 de março de 2013

Católicos aguardam pela nova era na Igreja


Primeiro fumo foi negro. Votações para encontrar sucessor de Bento XVI continuam quarta-feira de manhã.










A Basílica de São Pedro 


“Deus, concede-nos um Pastor que anuncie o Evangelho e a misericórdia”, pediu o cardeal Angelo Sodano durante a manhã. Ao cair da noite, eram milhares os católicos que enchiam a Praça de S. Pedro na expectativa de conhecer esse pastor: com as suas preces, ditas assim, de mais perto, quiseram unir-se à escolha e sublinhar as orações dos cardeais que têm a responsabilidade de eleger o sucessor de Bento XVI.
À primeira votação seguiu-se o esperado fumo negro. Poucos acreditavam que houvesse fumo branco, que dois terços dos cardeais escolhessem o mesmo homem no primeiro dia de conclave; tantos quiseram ainda assim confirmá-lo.
Nesta quarta-feira, os cardeais voltarão a entrar na Capela Sistina e os fiéis regressarão a S. Pedro. De manhã haverá duas votações, à tarde outras duas. Ratzinger foi escolhido em dois dias — e João Paulo II estava doente há anos. Ratzinger assombrou os católicos com a sua renúncia, a primeira em 600 anos, comunicada há um mês.
Nesta terça-feira, quando o fumo saiu por fim pela chaminé era noite escura: 20h42 e o fumo muito negro e espesso a debandar por entre a chuva, cinco longos minutos de fumo negro. A acompanhá-lo, um enorme “ohhhh” dito a milhares de vozes enquanto chapéus-de-chuva de todas as cores rodopiavam e depois se afastavam em blocos, esvaziando a Praça. “Até amanhã.”
Há oito anos, foi Ratzinger a presidir à Santa Missa Pro Eligendo Romano Pontifice, acto que inaugura o dia do arranque de cada conclave. Depois, entrou na Capela do Juízo Final de Miguel Ângelo e foi eleito pelos seus pares. Desta vez, o decano do Colégio Cardinalício é Sodano, que por já ter 85 anos não vota nem pode ser eleito. Desta vez, e apesar das regras e dos ritos repetidos, o facto de o decano do Colégio Cardinalício não ter assento no conclave é apenas uma entre tantas diferenças.
“Estive a trabalhar de noite e a seguir vim para aqui. O verdadeiro repouso é fazer a vontade de Deus, rezar e invocar o Espírito Santo para que nos mande o apóstolo, o pastor para estes tempos”, diz Aldo Ottomanelli, 65 anos, diácono na igreja de Bari, a passar uma temporada em Roma com objectivos claros. Veio lançar uma fundação que ofereça trabalho aos extracomunitários que chegam a Itália e só quer deixar a capital quando o conseguir. Entretanto, virá a S. Pedro todas as manhãs até o novo Papa estar eleito.
“Agora, é tempo de nos prepararmos para acolher Sua Santidade, a vinda de Cristo. O novo pastor chegará para espalhar o amor, a caridade e a humildade. Este novo pastor abrirá a porta da unidade, carregará o sofrimento e a cura. A cura triunfa sempre que a Igreja se renova”, afirma Aldo. O novo Papa, assegura este diácono, “abaterá muitas paredes e construirá outras, e terá a capacidade de falar a todo o mundo, com a mão direita da autoridade e a mão esquerda da humildade”. A renovação da Igreja far-se-á, diz ainda Aldo, através do exemplo e da palavra. “Uma vida simples é uma vida bela.”
Caridade e unidade
Aldo seguiu a missa de Sodano de olhos postos num dos quatro ecrãs gigantes espalhados pela praça desde a renúncia de Ratzinger. Viu os 115 eleitores e todos os outros cardeais reunidos em oração. Ouviu as palavras de Sodano e rezou com ele, jeans colados ao corpo pela chuva, às vezes em uníssono, noutros momentos sozinho, entregue às suas preces, sempre de pé, encostado às barreiras de madeira que desenham o percurso até à Basílica, numa manhã fechada a turistas.
Como Aldo, que insiste na importância da trindade “nestes tempos difíceis como nenhuns outros”, também Sodano repetiu essencialmente três temas ao longo da homilia de quase duas horas. Caridade, unidade e continuidade, foram as palavras escolhidas pelo cardeal.
Sodano citou a profecia de Isaías em que se anuncia o envio de “um Messias pleno de misericórdia” para levar “o contentamento anunciado aos pobres, limpar as lágrimas dos corações partidos, proclamar a liberdade aos escravos, a libertação aos prisioneiros”. Este Messias é Jesus e “é um amor que se faz notar particularmente no contacto com o sofrimento, a injustiça, a pobreza, com todas as fragilidades, físicas e morais”.
Esta missão de misericórdia, disse Sodano, foi entregue por Cristo a todos os pastores da Igreja, “mas compromete ainda mais o bispo de Roma”. Depois, citou Bento XVI, o Papa emérito sempre presente, que na sua mensagem da Quaresma explicou que por vezes se limita a “caridade” à “solidariedade” ou à “ajuda humanitária”, quando a maior obra de caridade “é a evangelização”.
Há oito anos, Ratzinger sublinhou que “sem verdade a caridade seria cega”. Sodano recuperou as suas palavras para dizer que a caridade se concretiza na evangelização e que é ela que define “a missão de misericórdia” que se pede a um Papa.
Agradecendo a Bento XVI — e arrancando com isso um longo aplauso, o cardeal Sodano pediu ainda unidade, antes de mais à própria Igreja, poucos dias depois de Ratzinger ter lamentado as “divisões” que a corroem: “Tenham muita humildade, doçura e paciência, apoiai-vos, uns aos outros, com amor”, disse aos prelados, “todos chamados a cooperar com o sucessor de Pedro, o fundamento da unidade da Igreja”. Pediu também continuidade. Com Ratzinger e com “os últimos pontífices”, “artesãos de tantas iniciativas benéficas, promovendo a justiça e a paz a nível mundial”.
Aldo concorda com quase tudo o que Sodano escolheu dizer aos cardeais, no seu último acto público antes da entrada em conclave. Mas vê no gesto do Papa alemão um acto de ruptura, “humilde e generoso”, e não espera continuidade. “Se Jesus estivesse aqui hoje no meio dos cardeais, seria uma criança que os olharia nos olhos. Sem a inocência de uma criança é impossível ver a verdade. Hoje, o mundo está entregue ao sentimentalismo e para o superar temos de invocar o Espírito Santo. Ele é que é o operário humilde que constrói as grandes obras à glória de Deus, ele, e não os cardeais, os bispos e os monsenhores”, diz Aldo. Amor, caridade e humildade, repete. E só a simplicidade os torna possíveis. Aldo quer reformas mas quer, mais ainda, um regresso às origens, à Igreja dos homens perante os homens, dos homens entre os homens.
Uma nova era
Nas palavras de Juan Arias, jornalista e filólogo que acompanhou João Paulo II nas suas viagens pelo mundo, o que a renúncia de Ratzinger anuncia é que “não estamos perante mais uma das crises que a Igreja enfrentou na sua história, mas perante algo inédito: uma encruzilhada que leva a pensar no fim do papado se este não se reforma”.
Fazem falta reformas, sim, escreveu Arias no jornal espanhol El País, mas estas não podem ser como tantas outras, simples “cosmética”. “A Igreja não precisa das reformas do passado, de mudanças para continuar igual.” Agora, diz Arias, seria preciso “um Papa profeta, capaz de inaugurar uma nova era”, um “revolucionário” que entenda que a revolução passa só pelo regresso às origens, implica apenas um passo atrás, como o de Bento XVI — um passo simples mesmo que enorme.
“Ser profeta no Vaticano, tentar de alguma forma recuperar a tradição evangélica, despojar o bispo de Roma dos seus poderes temporais, uma tarefa que até agora pareceu impossível.” O espanhol não sabe se Ratzinger tentou levá-la a cabo: “Pode ter intuído que um gesto profético poderia custar a vida.” E ainda assim, “o grande paradoxo é que a sua renúncia talvez tenha constituído um dos gestos mais proféticos dos últimos papas, capaz de obrigar a Igreja a rever-se dos pés à cabeça”.
Arias também não sabe se há entre os 115 cardeais “um Papa profeta”, mas escreve que a eleição de um Papa assim nunca será rápida porque nenhum dos nomes mais referidos, do italiano Angelo Scola ao brasileiro Odilo Scherer, tem esse perfil. E por agora só houve fumo negro no Vaticano.
 
=Público=






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